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7 de julho de 2023

Sede


Pele macia
Língua molhada.
Lençóis sujos de prazer.
Noite de medo,
Aceitações e mudanças.
Perdidos em esperanças
De não ser esquecido,
como um distante velho amigo.
Que pelas ruas perdido
Descobriu o corpo-querer,
pois na solidão foi se satisfazer.
Sexo suado.
Prazer em dois 
Cabelos, nuca e chão.
Horas depois
Um pedido de perdão.
 Perdão pra si mesmo
Por viver bem sem par.
Seu temor é que seja
Um simples desistir de amar.
Tanto faz, não custa tentar.
Já lhe levaram o chão
Só lhe resta esquecer
Da culpa que carrega
Por ainda querer o quê não se pode ter.
Deixar livre e deixar o agora,
Ser tudo aquilo que pode ser.
Pecado bruto em corpo suado.
Em braços cruzados,
pernas enroscadas.
Gotas de sorriso em olhos
Com bocas de libido salgadas.
É só o corpo pedindo.
É o imaginar agindo.
É matar a ânsia presente em pesares
Com a falta de outro verso punindo.
Punição, de verso em verso
Um jargão
Pois não manda nos sonhos
Quando acaba dormindo.
Quando o "bom sentir" vai embora.
Lhe carregando o desejo
Trazendo o elemento cruel
Chamado de "tempo agora".
Tempo de viver sozinho.
Chora.
Chora.
Mais nada porém.
Chora.

16 de junho de 2023

Carnaval Fora de Época

Máscaras de um Pierrot, papel marchê.
Um gole, e um suspiro inspira um trago.
Em pensamentos deito, me viro
Não me suporto, não me inspiro.
Me limito.
Sei que estou, sei que quero
Sei que posso, sei que consigo
Mas desdenho, estou vivo.
Delírios em sementes de angústia
Noites de calor em céu estrelado e lua.
Mais um gole, e agora um trago.
Em homenagem ao bêbado,
Em homenagem  ao desagrado.
Quase um desgraçado.
Menino-homem  em abandono
Largado ao vento de mudanças,
Colombina? Sem esperanças.
Pierrot escolhe o bloco
Vestindo-se em um palhaço.
Um gole.
Mais um, só mais um e depois outro.
Outro trago, seguido de mais 1/4.
Um escarro de veneno
Um carro
Um estrago
Um puta estrago
Um carro sem puta e amasso
O quê de um palhaço foi tirado, aprisiona.
Prende em um recanto que há muito fora abandonado.
Um pedaço de chão e riso de criança sem calor de pai
Esculpidos em descasos dentre laços maternos.
Em afagos e cuidados memoráveis.
Compostos de sangue sem par, fraternos.
Um templo solitário que os medos traz à tona
O limite do horizonte, que em recantos de versos simplórios dormia
Se pôs em  linha tênue, entre a razão e a melancolia.
A fronteira frágil que trouxe o palhaço, àquilo que não queria.
Ele, ele mesmo e o Espelho, como João Nogueira dizia
Se sentiu pequeno, se fez grande.
Gritou, bateu, apanhou e se desfez.
Se entregou a dor pra morrer sem demora
E não percebeu que o amor sobrevivia
Do crepúsculo à aurora.
Renascendo em um pedaço de chão-sozinho
Pelas ruas abarrotadas, seguiu chorando
Seguiu sorrindo.
Em um sopro de poesia esquecido
Em lírios cantando versos sofridos
Em um campo infindado de sonhos quebrados,
Cuidadosamente esculpidos
Desgarrados, quase desgraçado.
Pierrot e Colombina
Eles, um mito.
Ele, um grito.
Ela, sorriso.
Separados, ora pois.
É a história.
Triste pra um.
Talvez, só talvez - triste pra dois.
Mesmo que Arlequim não haja, ora bolas.
Há lágrima por dentro em um.
Há saudade presente em dois.
Sorrir, sorrindo, sorria.
O palhaço veste a fantasia.
É mesmo sem ser, carnaval sem luz do dia.
Viver sem o egoísmo de trocar, ora pois
O sofrimento só de um, pelo fracasso de dois.
Prosas em preces, minha velha amiga, 
Estou sofrendo, todos sabem!
Está claro com o dia, 
Nos lençóis da intimidade
Era o seu nome que eu dizia
Pois disseram que a falta do riso em chuva 
O Pierrot sabe bem reconhecer.
Transformando dia em noite
E noite em dia,
Gritou pedindo ao povo da rua 
Implorando pra lhe dizer,
Desejou toda a felicidade do mundo a você.
E pediu pelo direito de em paz, conseguir sofrer.






15 de junho de 2023

O simples direito de não mentir em meu sentir.

Vontade de faltar
Vontade de não ter
Vontade de quebrar.
Ser sem me querer
Enfraquece o meu existir
Me fortalece o ego e chão
E me tiram a solidão
De pedaço em pedaço
Um poetinha vagabundo
Aos poucos rouba meu espaço
Sendo o que é,
Fazendo o que seu jeito manda.
Ele apenas existe entre mim
E a mulher que não me ama.
Eu distorço minha forma de olhar
Para essa mulher que não me tem mais querer
Eu me ponho entre o casal e o mundo
Pois só sou aquilo que sei ser
Se não posso assim cativar
A mulher que não me quer mais
A menina de meio sorriso
Que se faz inteiro nos pelos
Do rosto de outro rapaz
Sim faz, meu pranto cair
Minha revolta crescer
E meu amor morrer.
Olho, entendo, percebo
Enfrento de frente e sem medo
Pois sei que esse sentimento apodrece
Por mais que a paixão seja linda
Ele, em cada farelo não a merece
Eu berro,
Meu grito em imagens de terror e sangue
Funcionando como prece
Que acalma o coração, querendo a dor
De esquecer no agora
A quem jamais se esquece.
Faça-se a vontade divina
A vontade que não é minha
Deixar de querer sem deixar de amar
Mesmo com sexo
Meu amor não haverá de se esgotar
Eu a chamo de puta
Sabendo que puta ela não é
Eu o quero amputado
Pedaço em pedaço
Membros, pênis e braço
Apenas por tocar com prazer
O meu tesouro mais bonito
Que ele não ama
Mas penetra com querer.
Não me engano
Esse rancor deve cessar
Pois sei que amo
E esse amor vai me matar
Em punhado de lágrimas
Escondidas em sorrisos
Vou calar.
Porque o quê fora guardado
Não há de ressuscitar.
Ela está suja
Meu tesouro tocado
Meu jardim que o inverno estragou
Meu refúgio que o abrigo a mim recusou
Minha dor que jamais esquecerei
Uma mulher que em meus braços dormiu
De um jeito que de novo não dormirei.
Saia do meu pensar
Saia agora.
Eu te ordeno,
Não te desdenho
Mas não te quero em meu querer
Eu te condeno no meu prazer
Jamais será igual
Não importando quanto tempo se passe
Não importando o quanto de seu amor ficasse
Você sujou sem querer
Com a vontade de não me ter
E cabendo a um outro em seu posto de prazer.
Não me encoste em tato
Apenas guarde meu cheiro.
Pois será esse o mais próximo que chegarás.
Me ver passando longe
Com máscaras de sorriso em rosto
Com um abraço em direção ao teu conforto
Vestindo o puro ódio por trás.
Não porque deverias me amar para sempre
Mas porque meu amor foi desprezado
Como um dia tantos ja fizeram,
Como  hoje você faz.
Como não irei aceitar.
Como?
Não sei, porém sei
Não mais.
Nunca.
Nunca.
Nunca mais.

26 de fevereiro de 2023

Labirinto de Emoções em Caos

Parte das coisas que fazemos, não conseguimos apagar ou esquecer. Parte das coisas que fazemos nos trazem vergonha quando mudam nossos sentimentos, sonhos e perspectivas. Por isso muitas vezes tratamos nossos piores erros como uma besta feroz que machuca tudo aquilo que toca e desse jeito, tentamos prender essa fera em lugares sem luz, que não costumamos visitar, expor ou falar sobre - é um jeito que o cérebro dá pro nosso subconsciente nos proteger de sentimentos ruins. Esses lugares não visitados do cérebro são protegidos por portas pesadas de razão e soldados fortemente armados com agressividade, medo e argumentos de certezas que vão fazer de tudo para que nada entre alí. Veja bem, nessa analogia, se alguém abre essas portas e invade o seu íntimo, essa pessoa consegue obervar todo o seu labirinto de caos - usando a luz da própria lanterna, o ângulo dos próprios olhos e o próprio martelo de juiz. Na maioria das vezes essas portas são arrombadas e invadidas com violência, bombas de mentiras e mais bestas ferozes, resultando em uma catástrofe emocional onde todas as partes envolvidas se machucam. Porém... muito raras às vezes, nossos portões do íntimo são abertos na base da confiança, do tato, do respeito, do entendimento. Iluminando o ambiente com esperança, opções, abrindo caminhos, trazendo luz. Nos adentramos mais e mais nesse labirinto de caos até que todo o tesouro em ouro reluz de uma forma quase divina: é quando de fato podemos dizer que realmente conhecemos alguém. Então passamos a aprender a viver e fazer parte daquele mundo, reconhecendo armadilhas daquele contexto, muitas vezes nos sentindo até confortáveis dentro daqueles portões. 
Mas espera, onde estão nossos pertences, nossas coisas? Aquele ouro reluzente não é nosso, é o tesouro de alguém e não lhe foi dado. Será que perdemos tanto tempo alí que esquecemos de onde viemos, do quê gostamos, do quê somos feitos e aonde queríamos chegar antes de estarmos alí? O triste fim dessa analogia, é que uma guerra começa para sair, para deixar o labirinto de caos para quem o construiu. Ora, quanto ouro conseguiríamos juntando nossos tesouros? Não percebemos que ao sair, voltamos para o nosso próprio mundo e os jardins do nosso reino que até então estava desgovernado, esquecido - está precisando de cuidados, irrigação e sol. Luz. "Luz para dias cansados" 

25 de julho de 2022

Sete Oceanos

   Buscando um pouco de luz e calma enquanto é noite e a lua não aparece, nessa hora em que o mundo sonha e eu tento transformar silêncio em calma. Enquanto o por enquanto transitório  é tudo que tenho, tento escutar a Palavra que me diz que a vida de Abraão foi uma lição de amor e fé. 
   Luz, luz para nossas noites. Luz para as margens do íntimo, aonde as estrelas são as constelações escritas com as nossas melhores lembranças onde meu cachorro me pede colo, quando sinto cheiro de mãe, escuto o barulho de mar, revivo o colo do meu pai e os cuidados da minha irmã, que assim vão guiando as velas de um barco sem remos, farol ou litoral em vista. Os sete oceanos são muita coisa para uma só vida.

27 de junho de 2021

Pedaços de Sonho

Se eu falasse um pouco mais
Sobre as coisas do meu peito,
Sobre como eu aprendi o amor

Você faria dos meus sonhos
Frases de um rascunho
Uma semente,
A chuva
O sol em flor

Uma gota de orvalho
Em forma de segredo
E os seus medos
Não me causam dor
As cores do teu céu 
Decorado com estrelas
Com a lua pra falar de amor

Nos versos simples que componho
Esperando pelo sol nascer
A vida que eu sonhei pra gente
Pode acontecer
Escrevo em um caderno de sonhos
Esperando pelo sol se pôr
Pintando as cores do seu rosto
Em uma canção de amor.

Te guardo nas memórias
A saudade de uma noite
Com a distância
E esse anseio aqui
Minha pele,
Meu sossego,
Meu libido
Meu abraço
A eternidade de um momento assim

Nos versos simples que componho
Esperando pelo sol nascer
A vida que eu sonhei pra gente
Pode acontecer
Escrevo em um caderno de sonhos
Esperando pelo sol se pôr
Pintando as cores do seu rosto
Em uma canção de amor.

25 de fevereiro de 2021

Momento Presente

 É um dia de chuva instensa e nossos amigos deixaram um certo eco no nosso apartamento. Piadas, rodizio de quem lavava a louça e vozes diferentes contando estórias de outros ventos. De alguma forma nosso ritmo diminuiu um pouco e ainda guardo o gosto de ter dormido na grama, dirigido em uma estrada em um clima sereno, em direção ao sol se pondo enquanto sua amiga babava no banco de trás. Nesse silêncio que durou a tarde toda enquanto eu tava aqui querendo fazer mágica com as nossas contas, me deparei com essa cena: você rodeada por essas caixas, vestida de quase nada, do jeito que eu mais gosto, mergulhada no seu mundo particular lixando as unhas. A nossa mudança ta chegando, os dias tem passado tão depressa e algumas saudades se tornaram lembranças. Parece que o tempo passa rápido demais quando a gente ta quebrando cabeça pra tocar nos próprios sonhos. No final das férias a primavera trouxe o sol, a neve e nossos amigos foram embora e nós dois ficamos aqui. Eu e você, desse jeito. Só eu sei o quanto eu depositei esperanças nos meus sonhos, desenhando, compondo versos, arranhando meus instrumentos, colecionando corações quebrados e refazendo castelos de areia até ficar de mal com mundo. Acreditar no amor e lutar por ele não é fácil, mas a recompensa vem em dias assim: quando me pego sorrindo por saber que você e o seu cheirinho de pele suada estão por perto.

24 de julho de 2020

What Toronto Humane Society Actually Does

"Dear Toronto Humane Society,

I'm not sure how to express it, since 'thank you' is not exactly the word to use here. It fills my heart, it makes me smile and even more: it gives me hope.
Please don't get me wrong, life is beatiful but since we've moved to Canada carring lots of dreams and opened minds we've found a terrible dark winter. Not referring to the amazing winter which allows any Canadian or turists to watch the snow from the window, enjoying a nice cup of tea and the marvelous views and landscapes. Instead, I'm talking about the dark side of humanity, that one which turn their hearts cold and nothing more. Side by side we've tried to take a walk around: from YorkVille, Church Wellsley, North York, Dundas West, Highpark, Duffreing, Yong and Eglinton,  Niagara Falls, Saint Paul and so and so.

After a year, 6 grades at George Brown College took a lot of my time and unloading trucks, handling trash without a jacket or gloves, sleeping three hours per night - never were a problem. I simply missed to talk, to share, to be noted. I never wanted to be important, just accepted. Than perhaps, I would be able make friends. It was when depression almost took me away, deep down all around those Sunny Brook Hospital corridors.

That was when I heard about you: Toronto Humane Society.
'This name means something big', I wrongly thought. Wrongly since the work you guys do and the way you do, the passion in the eyes of every single member of your team, oh, dear Lord - it warmed my heart. 
From reception to checkout, we've adopted Toyota who followed us from laundry to bed, to parks, subway - and spring finally came for us. 
Toyota needed care, he used to shake in fear after a glass or bucket falling in the kitchen or, during the daily activities.
For that reason, he slept in our bed for one entire week......and became the best part of coming home. Even futther, after some investigation his serious health problems were 100% managed by your organization and health care plan: surgery, exams, rehab and even psicology support (aka empathy) telling us that everything would be ok.

Toyota made our lives better and woke up a shinning beautiful feeling in our hearts. Life was kind to us, allowing us to get back to our home in Brazil as a family and nowadays he goes to the beach, gardens, parks and loves to play with everyone around.
So, how? How could I only say 'thank you'? You rescued him, took care of him and you allowed me to learn how to do it too. This piece of happiness brought me back my smile and kept me alive, just because Toyota shows me a love that I had to put me on my knees to thank you from the bottom of my heart.
From the deepest feeling of gratitude, take this message, my tears and my warmed heart - as a hug."

22 de junho de 2020

104 Weeks not so Far Away from Hell

Fighting thoughts, overthinking like angels loosing their wings due to bloody scars. Voices all around, screens of fake hopes leading to promises of a better world. 'D I feel it within my face decorating the entire floor? The moon raises and that DreamWorks's kid would be perfect on it but somehow, even knowing the stars are at the same place, it seems to be shining in a different way. Mixed feelings of joy and silence, an polished guitar and desperate. Tic tac, pointers keep dancing, a song comes to my mind but my fingers don't move. Estando ainda com o peito apertado por nada, traçando guerras com os ponteiros que seguiam disparados, dançavam a velha guarda de algum samba de raiz, tateando notas mudas.

20 de junho de 2020

Inside my Inside

Voices of mine, inviting me to dance. Bring me the silent night where I can follow my thoughts in a deep dive upon the stars.
Voices of mine, sing me that song where I heal those scars, when the blues touch the moon and my pride vanishes in dust.
Voices of mine, taking care of my light, turn my nightmares into sweet dreams smelling like my father's beard.
Voices of mine, thank you for passing by bringing all those poems about love within my brain, deep in my heart, inside my inside

10 de junho de 2020

Orvalho

Sonhos compostos de emoção
Frases perdidas sem direção
O tom de meus medos me deixa ver
Sem ter evidências, já posso crer

Que certos pedaços de meu caminho
Eu sei, estive sozinho, sem ninguém pra me abraçar
Com ódio então eu me vi perdido, esqueci da minha libido
E com amor, pude matar.

Mesmo com sangue nas mãos, sorri;
Como alegria pude sentir?
Nem me pergunto por onde andavas
Porque sei que me olhavas
Mesmo sem saber rezar;

Porém o abandono é necessário
Dessa chuva eu sou orvalho
Livre arbítrio é o meu lar

Melodias em "lá menor" compús
Talvez a tristeza que me seduz
Faça meus olhos sempre brilhar
E mesmo amargo, lacrimejar.
Contente com essas coisas da vida
Vou curando mil feridas
Pra depois me arrebentar
Nem me pergunto por onde andavas
Porque sei que me olhavas
Mesmo sem saber rezar;

Porém o abandono é necessário
Dessa chuva eu sou orvalho
Livre arbítrio é o meu lar

Talvez eu queira mesmo tudo assim,
Mas meu medo é Você largar de mim
Sonhos compostos de emoção
Com ódio e amor no coração

Nem me pergunto por onde andavas
Porque sei que me olhavas
Mesmo sem saber rezar;

25 de maio de 2020

Filhos Da Classe Média

Se eu parasse pra falar de como isso me incomoda,
A maneira que me espreitam quanto tudo à minha volta.
Me deixa.
Me erra.
Não fode.
Todo mundo tem problema e toca a vida como pode.

Os amigos que me erguem dos olhares que me ferem,
Na consciência estou tranquilo, porque pra mim não faz sentido:
Vida, fingida, morrendo por dinheiro
No Instagram é "minha querida" e o dia a dia é no puteiro.

Como pode nos seus dias pregar sobre o evangelho,
Bater na própria esposa e trai-la sem critério.
A segurança de uma lar é sustentada em um contrato
Lambendo o chão do chefe, de gravata e de sapato
O seguro desemprego acarreta no divórcio
Esposa, amante, negócios...
...No clube dos covardes sempre cabe mais um sócio.

Castelos de areia, na beira de uma praia.
Fotos de comida, velhinhos de mãos dadas.
Vivendo a sua vida, pois a minha não tem graça,
Entre stories e curtidas eu me afogo na cachaça

A poltrona é o meu trono, a minha casa o meu domínio.
A pensão meu ganha-pão e o meu filho um inquilino.

Colégio de freiras, merenda e Danoninho.
Aos nove Disneylândia e aos dezoito meu carrinho.
No Facebook malvadão,
E pelas ruas eu me escondo
Das histórias sendo rei,
Quem conta o conto conta um ponto

Vida colorida, gastando sem desculpa
Praia todo dia e o futuro não preocupa
Assim vou me moldando em um perfeito cidadão:
Dou Grana pra polícia e quero o pobre no valão.
Não contesta, não quero, se afasta!
Minha vida preguiçosa não combina com gentalha.
Um retardado usando Tommy
Uma perua usando Prada
Não mete a mão na louça,
Não lava uma privada.
Selfie e TBT, de uma mentira enlatada
Escravizados pelo ego, e o afeto é coisa rara.

O minha casa, minha vida
Uma mentira mal contada
Mediocre pela herança
De um ser que não trabalha
Compra na shopee sentada na privada
E na volta de Miami
Eu não quero ser parada
Boyzinho Preguiçoso
Não trabalha por escolha
Mete um filho na empregada
Enquanto ela lava roupa
Fugindo pra praia
Com a sua namorada
Loirinha de família
E o namoro é de mãos dadas.
Conta pra mãe dela
Com a cara mais lavada
Que já tá pra se formar
E que a vida é uma batalha
Uma família de mendigos
É motivo de careta
7 mil num celular
Pra jogar e bater punheta
Volta pro teu quarto
Tua casa e teu trabalho
Sai do meu caminho

(pausa)

Seu aspirante de burguês safado.

24 de maio de 2020

Uma Janela Particular de Sonhos

É quando a gente tá sozinho, no mundo infinito entre a cabeça e a vista da janela, no silêncio do quarto, da casa. É nessa hora que o corpo fica estranho, a cabeça agita e a gente vai atrás de qualquer lembrança de cheiro de mãe,  do primeiro gole de qualquer coisa em um dia que foi memorável. É quando a pele fica levemente grudada e se estica, o peito se enche e os olhos não transbordam. É quando a gente sente que tá domando aquilo que não tem nome e que só vivencia, quem se aventura pra dentro da própria historia. Desse emaranhado todo brota uma poesia que por si só faz um barulho tão ensurdecedor quanto um controle remoto caindo no chão, interrompendo o silêncio. Talvez quando se tem um mundo de coisas bonitas querendo sair - sem saber como, pra quem ou pra quê. Algo parecido com a vida transbordando através do tempo, tornando a noite inquieta e domando o silêncio sob o efeito de qualquer veneno entre a boca e o estômago, bem no meio do peito.

5 de maio de 2020

Uma Crônica Sobre Nós Três.

...até que pensei: "que bom seria, se meus dias começassem na praia. Dando bom dia pro porteiro noturno acordando, antes das barracas chegarem, chegando na areia na hora em que abre o metrô, dando um mergulho não importando o tempo, prestando atenção no sal secando na minha pele. Antes dos idiotas começarem a brigar por espaço no trânsito, antes da minha cabeça dar nó, antes de começar a pensar demais." O sol tava começando a esquentar a areia ainda fria nos meus pés e o vento de sudoeste, ajeitou as ondulações, anunciando o swell que chegaria na sexta feira. Você me olhava calada, de um jeito que me fez lembrar de como eu recortava as nossas fotos, rindo pra lente, rindo pra fora. Nessa hora, alí diante de todo esse emaranhado de idéias, percebi que há meses eu apenas fazia planos, vestindo sobrancelhas franzidas e mergulhado em um monte de contas. Quantas vezes pedimos comida nas últimas semanas? Quantas vezes havíamos ido ao cinema, quantas vezes fizemos algum programa que não fosse comer ou encontrar pessoas para beber e comer? Éramos nós três, antes mesmo do Toy, éramos três: eu, você e nós dois. Fazia tempo que o "nós dois" estava no quarto sozinho, sem receber atenção. Bem, já fazia um tempo eu havia feito uma promessa de cuidar de nós três e o medo dessa mesma promessa ser tudo o quê poderia me restar, me fez perder o sono, andar apressado sem destino, me fez traçar esboços, acordar cedo, e dormir tarde, e acordar cedo e não dormir e dormir e acordar cedo. Até que nesse vai e vem de introspecção em um mundo de comida por aplicativo, serviço de streaming, bolsa de valores e vídeo game - eu desisti de deixar você dormir, enchi o pneu da bicicleta e te puxei pra praia as 6h da matina. Você continuava sorrindo do mesmo jeito, se mexia da mesma forma e com toda a meiguice pela qual me apaixonei há quase 4 anos. Naquela hora meu coração disse que sentia falta da inquietude da paixão presente no suor de um abraço em um lugar insuportável de quente, de um beijo de lingua que ignora a sede da garganta seca - como quem quer estar perto, porque ficar longe faz coçar e dói. Olhei pra você e acalmei um monte de coisas, incluindo meu coração.

15 de dezembro de 2018

Bem vindo a 2014, Platão.

...até que em algum momento esqueci da minha ideia louca de ir pra Bahia tentar voltar a surfar e vimos uma lhama comendo capim. Equanto ela tirava fotos, senti que minhas pernas doíam de um jeito que os treinos de jiu jitsu jamais tinham alcançado. Minha calça jeans era 48, as sociais, 52. Eu não lembrava quando tinha transado pela ultima vez mas lembrava do símbolo platinum nos meus cartões de crédito, e olhando aquelas ruínas de civilização pensei que não tinha dinheiro o suficiente pra chegar mais alto. Olhei o céu azul, olhei as núvens e por algum breve momento voltei alguns anos lá pra praia na Vinícius, pro quarto bagunçado do Gebê, pro skate. Foi quando que sem perceber, contemplei aquele breve silêncio até ser interrompido pelas vozes de um casal de turistas. Meu Galaxy Note 3 não tinha nada de novo além de conversas vazias, um Facebook cheio de mentiras e o Whatsapp onde só se falavam da Copa do Mundo que ia ser no Brasil. Os turistas pareciam se divertir conversando e eu passei a pensar no quanto eu não aguentava mais ir pra bar ouvir o mesmo papo corporativo de sempre, enchendo a cara de gordura e chop. Abrí o instagram e nem sabia usar hashtag, #tbt não existia e eu tava no topo do mundo: usando algemas de 9 mil reais, gordo, deitado, espalhado na grama de 600 anos bem cuidada e verde, em um dia de céu aberto,  reclamando e pensando no quão alto eu poderia chegar abdicando da minha natureza, das minhas essências. Bem, eu queria ir pro Nordeste mas eu não sabia sonhar alto. Peguei um avião, trem, onibus e trem. E onibus e trem e onibus. Fui parar em Machu Picchu e tirei fotos que fariam minha vida parecer perfeita, enquanto cerrava chifre e conversava pela milésima vez sobre divórcio entre uma briga e outra. Eu ví a falta daquilo tudo que era parte da minha carne se transformarar em uma espécie de agonia, que me fazia gritar em silêncio todas as noites de sexta. Não me reconhecia, e mesmo lá de cima não me admirava, não olhava pra aquele céu com esperança e sim, quase que em tom de prece. Primeio tiraram minha voz, depois a autoestima. E enquanto os buracos  cresciam, minhas estrias tatuaram minha pele antes mesmo de eu reconhecer o monstro que tinha me tornado, morando na Caverna, em um Banquete inspirado por qualquer obra de Platão perdida na minha memória.